Mães atípicas transformam desafios em força e encontram nas praças de Maceió um novo recomeço
Revitalização de espaços públicos amplia inclusão e qualidade de vida
Entre terapias, consultas e uma rotina que exige atenção redobrada, mães atípicas encontram no empreendedorismo uma forma de garantir renda sem abrir mão do cuidado com os filhos. Em Maceió, histórias de força e reinvenção marcam a trajetória de mulheres que transformaram desafios em oportunidade e que, neste Dia das Mães, mostram que é possível empreender com propósito, mesmo diante das dificuldades. A transformação de praças, parques e espaços públicos revitalizados pela Prefeitura de Maceió também passou a representar um novo começo para essas mães, que encontraram nesses locais não apenas oportunidade de trabalho, mas acolhimento, convivência e qualidade de vida.
É nesse cenário que a história da empreendedora Francisca Santos, mais conhecida como Fran Santos, ganha voz. Aos 43 anos, ela divide a rotina entre as dores da fibromialgia, outras patologias clínicas e os cuidados intensos com o filho Daniel Vinícius, de 10 anos, diagnosticado com Transtorno do Espectro Autista (TEA) nível 2, Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), Transtorno Opositivo-Desafiador (TOD) e Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG).
Mesmo diante das dificuldades, ela decidiu não parar. Mãe atípica, empreendedora e apaixonada pela cozinha, Francisca encontrou nas feirinhas realizadas em praças e espaços revitalizados da capital uma nova forma de continuar sonhando.
“Eu sabia que ele seria meu filho desde o primeiro dia que o vi. Eu lutei para tê-lo, adotei, e ele continua sendo o maior e melhor presente da minha vida. Deus sabia o quanto eu precisava dele”, contou emocionada ao contar também sobre os comentários dolorosos por parte da população. “Tanta criança sadia para adotar, por que adotar uma criança doente?’. Isso machuca muito. Mas meu filho nunca foi um peso. Ele é meu amor.”
Fran lembra que o período em que recebeu o diagnóstico do filho coincidiu com a descoberta da própria fibromialgia. O impacto emocional mudou completamente sua rotina.
“Foi um combo de sentimentos. Descobrir o autismo dele e descobrir a minha fibromialgia ao mesmo tempo me deixou sem chão. Eu chorava o tempo todo, não conseguia trabalhar. Mas as feirinhas e o grupo de mães foram me trazendo de volta”, relembrou.
Hoje, ela integra o grupo “Empreender por Amor”, formado por mães atípicas empreendedoras que encontraram nos espaços públicos revitalizados pela Prefeitura de Maceió uma oportunidade de renda e também de acolhimento. Entre uma venda e outra, elas compartilham experiências, trocam apoio e transformam as praças em verdadeiros pontos de encontro afetivo.
“É nossa terapia. A gente ri, conversa, uma ajuda a outra. Muitas vezes somos excluídas de aniversários, de festas, porque as pessoas ainda têm preconceito com crianças atípicas. Então, quando estamos juntas nas praças, nos sentimos acolhidas”, disse.
Para Fran, continuar é uma escolha diária. E é justamente essa força que ela tenta transmitir para outras mães atípicas que chegam ao grupo sem saber por onde recomeçar.
“Quando chegamos nas praças, muitas mães chegam até nós perdidas, sem saber o que fazer depois do diagnóstico. E quando nos veem trabalhando, ocupando os espaços, sorrindo, elas entendem que a vida continua. Não é fácil, mas continua. E juntas, uma vai ajudando a outra a seguir”, destacou.
Apaixonada pela culinária, ela encontrou no empreendedorismo uma forma de continuar ativa, mesmo enfrentando dores constantes causadas pela fibromialgia.
“Eu amo cozinhar. Amo fazer as pessoas felizes através da comida. Faço caldos, sopas, bolos, tortas, salgados. É cansativo, meu corpo sente muito depois, mas eu não quero parar de fazer o que amo”, afirmou.
A transformação das praças da capital também teve impacto direto na vida dessas mães. Além de garantir mais segurança, iluminação e espaços de convivência, os ambientes passaram a receber feiras de empreendedorismo e encontros do grupo.
“Esses espaços deram uma nova vida para a gente. Aqui a gente faz eventos, se reúne, conversa, empreende. Já teve chá de bebê, encontros e momentos muito importantes para todas nós”, contou.
Fran afirma que a maternidade transformou completamente sua visão de vida e fortaleceu sua missão de seguir em frente.
“A maternidade muda tudo. Muitas vezes a mulher se perde tentando cuidar de todo mundo, mas quando existe apoio, acolhimento e troca, a caminhada fica mais leve. A gente entende que não está sozinha.”
Ela também celebra o acolhimento que encontrou na rede municipal de ensino, especialmente na Escola Municipal Orlando Araújo, na Ponta Verde, onde Daniel estuda atualmente.
“Foi na escola municipal que eu vi meu filho realmente ser acolhido. Eles abraçam as crianças de verdade. Fazem adaptações, acompanham, têm cuidado. Eu não esperava encontrar esse apoio e hoje sou muito grata. O meu Danzinho evoluiu muito e tudo isso é graças ao trabalho que a prefeitura está fazendo”, relatou.
Apoio e Inclusão
Gabrielle Nascimento, de 40 anos, encontrou no grupo de empreendedoras uma forma de continuar sonhando sem abrir mão da maternidade atípica. Mãe de Giovanna, de 12 anos, diagnosticada com autismo nível 1, dislexia e TDAH, ela conta que o diagnóstico da filha chegou de forma tardia, quando a menina já tinha 10 anos, trazendo novos desafios para a rotina da família.
“Com meninas, muitas vezes o diagnóstico demora mais porque elas conseguem mascarar alguns sinais de autismo. Quando chegou o diagnóstico, mesmo eu já empreendendo antes, levei um choque. Pensei: ‘Como vai ser agora? Como vou conciliar a rotina de mãe atípica com a de empreendedora?’”, relembrou.
Mesmo já trabalhando com loja virtual de laços @Gibiarteselacos, acessórios e gastronomia, Gabrielle precisou reorganizar completamente a vida após o diagnóstico. Entre clínicas, terapias e acompanhamento constante, ela encontrou apoio no grupo de mães atípicas empreendedoras.
“Eu só continuei. O empreendedorismo já era meu plano A e passou a ser meu plano A, B e C. Foi o que me permitiu continuar sonhando. A rotina muda totalmente. São horas procurando terapia, indo para clínica, acompanhando tudo. É muito cansativo. Mas junto com as meninas do grupo, a gente conseguiu seguir. A mãe quer dar conta, e a gente vai encontrando forças”, disse.
Ela conta que as praças e espaços públicos passaram a ter um papel importante na vida dessas mães. Além de proporcionarem segurança e lazer para as famílias, os locais também se transformaram em oportunidade de renda através das feiras de empreendedorismo.
“Quando você revitaliza uma praça, um espaço público, você devolve aquele espaço para o povo. Hoje a gente encontra ambientes seguros, iluminados, com parquinho, espaço para as crianças correrem. A gente vem trabalhar, mas também vem relaxar, conversar, interagir. Virou nosso trabalho e nossa terapia ao mesmo tempo”, afirmou.
Gabrielle também chama atenção para os desafios enfrentados por mães atípicas na sociedade e no ambiente escolar. Segundo ela, ainda existe muito preconceito e falta de preparo, especialmente na rede privada de ensino, para acolher crianças neurodivergentes e suas famílias.
“Muitas mães acabam empreendendo porque o mercado de trabalho fecha portas. A mulher vira mãe e muitas vezes deixa de ser vista profissionalmente. Então o empreendedorismo surge como uma forma de continuar viva, continuar realizando sonhos. Muitas vezes somos nós, pais, que precisamos lutar sozinhos por suporte e inclusão”, ressaltou.
Apesar da força diária, Gabrielle afirma que o preconceito ainda machuca, principalmente quando atinge diretamente os filhos.
“Teve um período em que minha filha não queria mais sair de casa e muito menos ir para a escola porque começou a perceber olhares e comentários. Isso dói nela, mas dói muito mais em mim. E essa dor deveria estar na sociedade que exclui.”
Mãe de uma menina que define como sua “filha arco-íris”, Gabrielle afirma que a maternidade transformou completamente sua vida e sua forma de enxergar o mundo.
“Minha filha me faz forte todos os dias. A maternidade ensina paciência, resiliência e amor. Mesmo diante das dificuldades, a gente continua porque nossos filhos merecem todo amor e todas as oportunidades”, concluiu.
Recomeço
Aos 43 anos, Luciana Ferreira também é uma dessas mães. Ela é mãe de Luan Gabriel, de 10 anos, autista nível 2 de suporte, e de Luiz Henrique, de 15 anos, deficiente auditivo. Ela conta que só passou a compreender verdadeiramente o que era maternidade atípica após o diagnóstico do filho mais novo.
“Eu já era mãe atípica e não sabia. Foi quando veio o diagnóstico do Luan que eu entendi que essa maternidade exigia desafios diferentes. E a maternidade por si só já não é fácil”, relatou.
A rotina intensa fez com que Luciana precisasse deixar o emprego formal após perceber sinais de esgotamento emocional. “Eu estava entrando em burnout. Não conseguia mais ser funcionária, esposa, mãe e dar conta de tudo ao mesmo tempo. Foi quando conheci as meninas empreendendo em uma praça aqui em Maceió e meu olho brilhou. Eu pensei: ‘Trabalhei 25 anos para os outros e não sei fazer nada para mim’. Aí fiz um curso e comecei a trabalhar com terapias holísticas, que é uma área pela qual sou apaixonada e hoje estou nas praças e em outros lugares trabalhando com as meninas no que eu amo”, contou.
Hoje, ela afirma que empreender nas praças revitalizadas trouxe mais qualidade de vida para toda a família. “O espaço público chamou a sociedade de volta para o lazer. Hoje temos segurança, organização, parquinho para as crianças e um ambiente acolhedor. Enquanto uma empreende, a outra ajuda olhando os filhos. Isso virou um diferencial enorme para as mães atípicas”, destacou.
Para Luciana, que é dona da @luzciana_massoterapeuta, além da renda extra, o empreendedorismo também funciona como um escape emocional. “A gente sai um pouco da rotina pesada das terapias e começa a pensar em criar, vender, pesquisar. Isso ajuda muito nossa saúde mental.”
Neste Dia das Mães, Luciana deixa uma mensagem de acolhimento para mulheres que estão começando a enfrentar os desafios da maternidade atípica. “Não desistam de sorrir. O caminho não é fácil e muitas vezes parece que o chão some dos nossos pés. Mas busquem apoio, conversem, não deixem ninguém dizer que vocês não são capazes. Com amor, apoio e força pelos nossos filhos, a gente consegue seguir em frente”, afirmou.







