Iniciativas tentam facilitar acesso e permanência de mães na ciência
Há mais de 20 anos, o Brasil forma mais doutoras do que doutores. Ainda assim, as mulheres continuam sendo minoria entre os professores de graduação e pós-graduação. Além disso, elas recebem apenas 1/3 das bolsas de produtividade –destinadas a cientistas com maior destaque na carreira acadêmica.
O chamado “efeito tesoura“, que nomeia esse corte progressivo das mulheres conforme a carreira avança, é um fenômeno bastante conhecido, mas o impacto ainda maior sobre as mães só começou a ser debatido há poucos anos, de acordo com a pesquisadora e professora da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) Fernanda Staniscuaski.
Fernanda já era docente e pesquisadora quando decidiu se tornar mãe e precisou pisar no freio em plena ascensão profissional. Mas o que seria uma desaceleração momentânea acabou se prolongando por mais tempo do que ela esperava e depois se revelou a entrada para um ciclo difícil de romper.
“Quanto menos a mulher produz, menos ela vai ter oportunidade para ganhar financiamento, para conseguir bolsas para orientandos e obviamente isso vai fazer com que ela produza menos ainda. Existe essa pausa por causa da maternidade e ela tem que ser reconhecida. Mas a gente precisa das condições de retorno.”
Ao dividir suas angústias com amigas que também são cientistas e mães, Fernanda se deu conta de que vivia uma realidade comum. A pesquisadora fundou em 2016, ao lado de outras 6 mães e 1 pai, o movimento Parents in Science para debater a parentalidade entre pesquisadores. A iniciativa completa 10 anos em 2026 com mais de 90 cientistas associados –a maioria mulheres.
Ao dividir suas angústias com amigas que também são cientistas e mães, Fernanda se deu conta de que vivia uma realidade comum. A pesquisadora fundou em 2016, ao lado de outras 6 mães e 1 pai, o movimento Parents in Science para debater a parentalidade entre pesquisadores. A iniciativa completa 10 anos em 2026 com mais de 90 cientistas associados –a maioria mulheres.
Uma das principais frentes do Parents in Science tenta preencher uma lacuna de dados sobre esse universo, já que o Brasil não tem uma contagem oficial sobre o número de pesquisadores e docentes que têm filhos, o que impede que o impacto na carreira seja devidamente medido.
Mas os números que comprovam o “efeito tesoura” já são um indicativo de como o cuidado com os filhos onera de maneira diferente homens e mulheres. Fernanda destaca que, ao contrário do que muitas pessoas pensam, os padrões desiguais da sociedade também são reproduzidos entre acadêmicos.
“As mães carregam o ônus do cuidado. Existe uma mudança cultural em andamento, com uma participação maior dos pais, mas a gente está longe de ser uma sociedade onde o cuidado é totalmente dividido, não só entre mães e pais, mas como algo coletivo“, afirma.
Números da pesquisa
O documento mais recente publicado pelo grupo traz uma análise sobre a entrada e permanência na docência de pós-graduação. Para dar aulas nesses cursos, os pesquisadores precisam passar por um processo de credenciamento que avalia questões como a produtividade, refletida em artigos publicados, participações em congressos, orientações de estudantes etc.
Esse currículo é reavaliado periodicamente e o docente pode ser recredenciado ou deixar o programa. O levantamento com dados de cerca de 1.000 docentes revela algumas diferenças significativas entre pais e mães, especialmente nos casos de descredenciamento.
Entre os pais, 43,7% deixaram o programa onde atuavam por iniciativa própria, enquanto 37,5% foram descredenciados por perda de produtividade. Já entre as mães, a ordem se inverte: apenas 24,6% saíram a pedido, enquanto 66,1% foram descredenciadas por não apresentarem mais a produção mínima exigida.
O levantamento também aponta maior dificuldade das mães para se reinserir no sistema depois do descredenciamento. Considerando apenas as pessoas que saíram por perda de produtividade, 38% das mães não conseguiram retornar, contra 25% dos pais. Já entre os docentes que saíram a pedido, 25% das mães não retornaram, o que aconteceu com apenas 7,1% dos pais.
“Existe uma questão de gênero que é bem clara, mas há também uma influência muito grande de raça. As mulheres pretas, pardas e indígenas continuam sendo o grupo mais sub-representado. Então, a gente precisa cruzar as diferentes barreiras que existem, como a questão das mães de filhos com deficiência, que também ocupam menos espaços“, diz Fernanda.